Subterrâneos

José Gomes Ferreira - 22Nov2009 00:04:38

Viver Sempre Também Cansa

 

Viver sempre também cansa!

 

O Sol é sempre o mesmo e o céu azul

ora é azul, nitidamente azul,

ora é cinza, quase verde...

Mas nunca tem cor inesperada.

 

O Mundo não se modifica.

As árvores dão flores,

folhas, frutos e pássaros

como máquinas verdes.

 

 

As paisagens também não se transformam.

Não cai neve vermelha,

não há flores que voem,

a lua não tem olhos

e ninguém vai pintar olhos à lua.

 

Tudo é igual, mecânico e exacto.

 

Ainda por cima os homens são os homens.

Soluçam, bebem, riem e digerem

sem imaginação.

 

E há bairros miseráveis, sempre os mesmos,

discursos de Mussolini,

guerras, orgulhos em transe,

automóveis de corrida...

 

E obrigam-me a viver até à Morte!

 

Pois não era mais humano

morrer por um bocadinho,

de vez em quando,

e recomeçar depois, achando tudo mais novo?

 

Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,

morrer em cima de um divã

com a cabeça sobre uma almofada,

confiante e sereno por saber

que tu velavas, meu amor do Norte.

 

Quando viessem perguntar por mim,

havias de dizer com o teu sorriso

onde arde um coração em melodia:

"Matou-se esta manhã.

Agora não o vou ressuscitar

por uma bagatela."

 

E virias depois, suavemente,

velar por mim, subtil e cuidadosa,

pé ante pé, não fosses acordar

a Morte ainda menina no meu colo..."

 

José Gomes Ferreira

 

Biografia


Escritor, poeta e ficcionista português, natural do Porto. Formou-se em Direito em 1924, tendo sido cônsul na Noruega entre 1925 e 1929. Após o seu regresso a Portugal, enveredou pela carreira jornalística. Foi colaborador de vários jornais e revistas, tais como a Presença, a Seara Nova e Gazeta Musical e de Todas as Artes. Esteve ligado ao grupo do Novo Cancioneiro, sendo geral o reconhecimento das afinidades entre a sua obra e o neo-realismo. José Gomes Ferreira foi um representante do artista social e politicamente empenhado, nas suas reacções e revoltas face aos problemas e injustiças do mundo. Mas a sua poética acusa influências tão variadas quanto a do empenhamento neo-realista, o visionarismo surrealista ou o saudosismo, numa dialéctica constante entre a irrealidade e a realidade, entre as suas tendências individualistas e a necessidade de partilhar o sofrimento dos outros.

Da sua obra poética destacam-se, para além do volume de estreia, Lírios do Monte (1918), Poesia, Poesia II e Poesia III (1948, 1950 e 1961, respectivamente), recebendo este último o Grande Prémio de Poesia da Sociedade Portuguesa de Escritores. A sua obra poética foi reunida em 1977-1978, em Poeta Militante. O seu pendor jornalístico reflecte-se nos volumes de crónicas O Mundo dos Outros (1950) e O Irreal Quotidiano (1971). No campo da ficção escreveu O Mundo Desabitado (1960), Aventuras de João Sem Medo (1963), Imitação dos Dias (1966), Tempo Escandinavo (1969) e O Enigma da Árvore Enamorada (1980). O seu livro de reflexões e memórias A Memória das Palavras (1965) recebeu o Prémio da Casa da Imprensa. É ainda autor de ensaios sobre literatura, tendo organizado, com Carlos de Oliveira, a antologia Contos Tradicionais Portugueses (1958).
Em Junho de 2000, foi lançada no porto a colectânea Recomeço Límpido, que inclui versos e prosas de dezenas de autores em homenagem a José Gomes Ferreira.

 

 

Entrei no café com um rio na algibeira

 

  

Entrei no café com um rio na algibeira
e pu-lo no chão,
a vê-lo correr
da imaginação...

A seguir, tirei do bolso do colete
nuvens e estrelas
e estendi um tapete
de flores
a concebê-las.

Depois, encostado à mesa,
tirei da boca um pássaro a cantar
e enfeitei com ele a Natureza
das árvores em torno
a cheirarem ao luar
que eu imagino.

E agora aqui estou a ouvir
A melodia sem contorno
Deste acaso de existir
-onde só procuro a Beleza
para me iludir
dum destino.

 

  Choro!

 

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
as crianças violadas
nos muros da noite
úmidos de carne lívida
onde as rosas se desgrenham
para os cabelos dos charcos.

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
diante desta mulher que ri
com um sol de soluços na boca
— no exílio dos Rumos Decepados.

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
este seqüestro de ir buscar cadáveres
ao peso dos poços
— onde já nem sequer há lodo
para as estrelas descerem
arrependidas de céu.

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
a coragem do último sorriso
para o rosto bem-amado
naquela Noite dos Muros a erguerem-se nos olhos
com as mãos ainda à procura do eterno
na carne de despir,
suada de ilusão.

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
todas as humilhações das mulheres de joelhos nos tapetes da súplica
todos os vagabundos caídos ao luar onde o sol para atirar camélias
todas as prostitutas esbofeteadas pelos esqueleto de repente dos espelhos
todas as horas-da-morte nos casebres em que as aranhas tecem vestidos para o sopro do
silêncio
todas as crianças com cães batidos no crispar das bocas sujas
de miséria...

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro...

Mas não por mim, ouviram?
Eu não preciso de lágrimas!
Eu não quero lágrimas!

Levanto-me e proíbo as estrelas de fingir que choram por mim!

Deixem-me para aqui, seco,
senhor de insônias e de cardos,
neste òdio enternecido
de chorar em segredo pelos outros
à espera daquele Dia
em que o meu coração
estoire de amor a Terra
com as lágrimas públicas de pedra incendiada
a correrem-me nas faces
— num arrepio de Primavera
e de Catástrofe!



Fonte: http://subterraneodaliteratura.blogs.sapo.pt/4269.html

Poema: Parasitas - 15Jul2009 21:59:34

 

Parasitas

 

No meio de uma feira, uns poucos de palhaços

Andavam a mostrar, em cima de um jumento

Um aborto infeliz, sem mãos, sem pés, sem braços,

Aborto que lhes dava um grande rendimento.

 

Os magros histriões, hipócritas, devassos,

Exploravam assim a flor do sentimento,

E o monstro arregalava os grandes olhos baços,

Uns olhos sem calor e sem entendimento.

 

E toda a gente deu esmola aos tais ciganos:

Deram esmola até mendigos quase nus.

E eu, ao ver este quadro, apóstolos romanos,

 

Eu lembrei-me de vós, funâmbulos da Cruz,

Que andais pelo universo há mil e tantos anos,

Exibindo, explorando o corpo de Jesus.

 

Guerra Junqueiro - Freixo de Espada à Cinta, 1850-1923



Fonte: http://subterraneodaliteratura.blogs.sapo.pt/4010.html

Bernardo Santareno: A Promessa - 08Jul2009 20:55:03

 

 

A Promessa

 

      A Promessa é uma peça em três actos e três quadros de Bernardo Santareno. Escrita em 1957, numa década em que o fascismo em Portugal intensificava a sua opressão, e condicionava todas as formas de arte, A Promessa é representada pela companhia do Teatro Experimental do Porto, com a encenação de António Pedro. Após, a exibição em palco A Promessa foi proibida, ao que parece, por pressões da Igreja Católica.

    

 

     Bernardo Santareno pseudónimo de António Martinho Rosário, médico psiquiatra, natural de Santarém, em A Promessa relata o drama de um jovem casal prisioneiro de uma promessa, da qual não se pode libertar, mesmo indo contra a própria natureza humana. A libertação do casal, no final do drama, dá-se quando a pressão social e a própria natureza humana é superior à força da religião supersticiosa.

     A Promessa é, certamente, uma obra-prima do Teatro Português.

 

 

A critica:

 

     "Acontece, como me aconteceu, pegar sem fé num volume de peças de teatro de um autor desconhecido e descobrir, com deslumbramento, um grande dramaturgo português, com certeza um dos casos mais sensacionais da dramaturgia contemporânea depois do Lorca..."

 

António Pedro, em Diário de Notícias

 

     "Poucas pessoas têm tantas qualidades como Santareno, para se perderem ou salvarem, nos pântanos do talento e do êxito, na celebridade das discussões apaixonadas, no vazio total e infernal das obsessões de angelismo."

 

Jorge de Sena, em Gazeta Musical e de todas as Artes.

 

     "Depois de haver revelado ao público essa obra-prima do teatro português contemporâneo que A Promessa, de Bernardo Santareno, obra que cedo ou tarde atravessará fronteiras e terá a projecção universal que merece..."

 

Urbano Tavares Rodrigues, em Diário de Lisboa 



Fonte: http://subterraneodaliteratura.blogs.sapo.pt/3641.html

Joracy Camargo - Deus Lhe Pague... - 06Jul2009 00:05:42

 

DEUS LHE PAGUE...

 

     A propósito das peças de Joracy Camargo, um notável crítico do Brasil evocou "a arte de diálogo" de Dumas Filho e de Oscar Wilde. Esse justo louvor merece-o, decerto, o grande comediógrafo, mas é apenas um dos aspectos do seu excepcional talento, desse raro talento que Procópio Ferreira, o intérprete admirável de Joracy  Camargo, não hesita em qualificar de "génio".

 

     Ouvindo representar qualquer das obras de Joracy, ou lendo-as no sossego duma hora consagrada ao espírito e à beleza, reconhecemos realmente a presença do "génio", isto é, da capacidade de criar vida, de comunicar vida e vibração a todos os personagens que surgem e se movem no palco.

 

     O público português, que aplaudiu com entusiasmo esse comovente Deus Lhe Pague... sabe que Joracy Camargo reúne em suas comédias a mais prestigiosa técnica aos mais elevados e nobres pensamentos sociais. O seu teatro pode e deve chamar-se, sem o menor exagero, "teatro de ideias", teatro que não contente em divertir ou distrair, mas que pretende e consegue sempre erguer a alma do ouvinte ou do leitor acima das mesquinharias e dos egoísmos quotidianos.

 

     Ressuma, transcende a humanidade, resplende de inteligência e vibra de profunda, embora discreta emoção contagiosa. Deus Lhe Pague... teve centenas de representações no Brasil, foi representada na Argentina em quatro teatros ao mesmo tempo, assim como obteve idêntico êxito de todos os países da América Latina onde se contam muitas edições da comédia já famosa, que foi adoptada oficialmente nas Universidades norte-americanas, como livro auxiliar no ensino da língua portuguesa.

 

     Procópio chama a Deus Lhe Pague... a maior obra cultural do teatro brasileiro. Opinião de singular importância, vindo, como vem, do actor exímio, que não tem rival no seu país nem em toda América do Sul.

    

    Excerto de Deus Lhe Pague...

 

Mendigo: Na sua opinião. O que o povo quer é a coisa mais simples deste mundo.

 

Péricles: Qual é?

 

Mendigo: A supressão de uma palavra do dicionário.

 

Péricles: Qual?

 

Mendigo: Miséria!

 

Péricles: Só isso?

 

Mendigo:

 

(..)

 

Péricles: E o egoísmo?

 

Mendigo: O egoísmo é o grande obstáculo! É o castelo feudal em cuja arca está guardada essa palavra abominável mas necessária - Propriedade!

 

Péricles: Se não me engano, pela sua maneira de falar, o senhor é comunista!

 

Mendigo: Psiu! Silêncio! Comunismo é palavra que quer entrar para o dicionário com escalas pela polícia...

 

Péricles: Então, é por isso que toda a gente tem medo dessa palavra?...

 

Nancy: E haverá razão para tanto medo?

 

Mendigo: Há! O comunismo é como aquele boneco de palha de que a gente tem medo quando é criança.

 

Nancy: Não entendi.

 

Mendigo: Havia em minha casa, quando eu era pequeno, um boneco de palha, com o qual minha mãe me obrigava a dormir mais cedo. Eu tinha um terror pânico do boneco. Um dia, distraidamente, sentei-me em cima do manipanso.

 

Nancy: Que horror!

 

Péricles: Deu um salto, assustadíssimo?!

 

Mendigo: Não, Quando percebi que o esmagara, retirei-o do suplício, examinei-o bem e compreendi, por mim mesmo, que o boneco de palha era incapaz de fazer mal às crianças. Ajeitei a barriguinha dele e tornei-me o seu maior amigo.

 

Nancy: E sua mãe?

 

Mendigo: Minha mãe ficou meio encabulada. Mas fui incapaz de chama-la mentirosa. - O comunismo é o boneco de palha das crianças grandes.



Fonte: http://subterraneodaliteratura.blogs.sapo.pt/3354.html

A Cor da Liberdade - 01Mai2009 23:58:36

Não hei-de morrer sem saber

qual a cor da liberdade.

 

Eu não posso senão ser

desta terra em que nasci.

Embora ao mundo pertença

e sempre a verdade vença,

qual será ser livre aqui,

não hei-de morrer sem saber.

 

Trocaram tudo em maldade,

é quase um crime viver.

Mas, embora escondam tudo

e me queiram cego e mudo,

não hei-de morrer sem saber

qual a cor da liberdade.

 

Jorge de Sena



Fonte: http://subterraneodaliteratura.blogs.sapo.pt/3165.html

Poema na morte de Che Guevara - 06Jan2009 22:46:37

Neste vil mundo que nos coube em sorte

por culpa dos avós e de nós mesmos

tão ocupados em desculpas de salvá-lo,

há uma diferença de revoluções.

Alguns sonfrem do estômago, escrevem versos,

Outros reúnem-se à semana discutindo

o evangelho da semana; outros agitam-se

na paz da consciência que adquirem

com agitar-se em benefícios e protestos;

outros param com as costas na cadeia,

para que haja protestos. Há também

revoluções, umas a sério, que se acabam

em compromissos, e outras a fingir,

que não acabam nem começam. Mas são raros

os que não morrem de úlcera ou de pancada a mais,

e contra quem agências e computadores

se mobilizam de sabê-los numa selva

tentando que os campónios se revoltem.

Os campónios não se revoltam. E eles

São caçados, fuzilados, retratados

em forma de cadáver semi-nu,

a quem cortam depois cabeça, mãos,

ou dedos só (numa ânsia de castrá-los

mesmo depois de mortos) e o comércio

transforma-os logo num cartaz romântico

para quarto de jovens que ainda sonhem

com rebeldias antes de se empregarem

no assassinar pontual da sua humanidade

e da dos outros, dia a dia, ao mês,

com seguro social e descontando

para a reforma na velhice idiota.

Ó mundo pulha e pilha que de mortos vive!

 

Jorge de Sena



Fonte: http://subterraneodaliteratura.blogs.sapo.pt/2943.html

O Viajante Clandestino - 03Jan2009 21:14:13

Este é o local, o dia, o mês, a hora.

O jornal ilustrado aberto em vão.

No flanco esquerdo, o medo é uma espora

fincada, firme, imperiosa. Não

espero mais. Porquê esta demora?

Porquê temores, suores? Que vultos são

aqueles, além? Quem vive ali? Quem mora

nesta casa sombria? Onde estão

os olhos que espiavam ainda agora?

O medo, a espora, o ansiado coração,

a noite, a longa noite sedutora,

o conchego do amor, a tua mão...

 

Era o local, o dia, o mês, a hora

Cerraram sobre ti os muros da prisão.

 

Daniel Filipe

 



Fonte: http://subterraneodaliteratura.blogs.sapo.pt/2600.html

Elogio da Dialéctica - 02Jan2009 22:01:29

A injustiça avança a passo firme.

Os tiranos fazem planos para dez mil anos.

O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são.

Nenhuma voz além da dos que mandam.

E em todos os mercados proclama a exploração: isto é apenas o meu começo.

Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem:

Aquilo que nós queremos nunca mais o alcançaremos.

 

Quem ainda está vivo diga: nunca.

O que é seguro não é seguro.

As coisas não continuarão a ser como são.

Depois de falarem os dominantes

Falarão os dominados.

Quem pois ousa dizer: nunca?

De quem depende que a opressão prossiga? De nós.

De quem depende que ela acabe? Também de nós.

O que é esmagado, que se levante!

O que está perdido, lute!

O que sabe ao que se chegou, que há aí que o retenha?

Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã.

E nunca será: ainda hoje.

 

Bertolt Brecht



Fonte: http://subterraneodaliteratura.blogs.sapo.pt/2468.html

Poema: A Metamorfose dos Deuses - 01Jan2009 23:10:06

 

Os antigos deuses pagãos - isto é segredo -

Foram os primeiros cristãos convertidos

Iam através dos bosques de carvalhos pardos, ao encontro das multidões,

Resmungando orações populares e fazendo o sinal da cruz.

 

Ao longo de toda a Idade Média

Instalavam-se como que distraídos nos nichos das casas de Deus

De todas as populações necessitadas de figuras divinas.

 

E no tempo da Revolução Francesa

Foram os primeiros a usar as máscaras douradas da razão pura:

Soberanos conceitos,

Pairavam, velhos sugadores de sangue e falsificadores de ideias,

Sobre o dorso curvado da multidão trabalhadora.

 

Bertolt Brecht



Fonte: http://subterraneodaliteratura.blogs.sapo.pt/2198.html

Poema - O Mostrengo - 24Jan2008 22:45:40

O MOSTRENGO

O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
A roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,

E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:

«El-Rei D. João Segundo!»
«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,

Três vezes rodou imundo e grosso.
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»

E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-Rei D. João Segundo!»
Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,

E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme

E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»



Fernando Pessoa in Mensagem



Fonte: http://subterraneodaliteratura.blogs.sapo.pt/2024.html

Ary dos Santos - Homenagem - 18Jan2008 20:30:37

Faz hoje 24 anos que faleceu José Carlos Ary dos Santos, grande Poeta e Comunista.

 

Auto-Retrato

Poeta  é certo  mas de cetineta
fulgurante de mais para alguns olhos
bom artesão na arte da proveta
narciso de lombardas e repolhos.

Cozido à portuguesa  mais as carnes
suculentas da auto-importância
com toicinho e talento  ambas partes
do meu caldo entornado na infância.

Nos olhos  uma folha de hortelã
que é verde  como a esperança que amanhã
amanheça de vez a desventura.

Poeta de combate  disparate
palavrão de machão no escaparate
porém  morrendo aos poucos de ternura.

José Carlos Ary dos Santos
 



Fonte: http://subterraneodaliteratura.blogs.sapo.pt/1561.html

Poema - 15Jan2008 22:58:49

A cidade é um chão de palavras pisadas

 

 

A cidade é um chão de palavras pisadas

A cidade é um chão de palavras pisadas
a palavra criança  a palavra segredo.
A cidade é um céu de palavras paradas
a palavra distância  e a palavra medo.

A cidade é um saco  um pulmão que respira
pela palavra água  pela palavra brisa
A cidade é um poro  um corpo que transpira
pela palavra sangue  pela palavra ira.

A cidade tem praças de palavras abertas
como estátuas mandadas apear.
A cidade tem ruas de palavras desertas
como jardins mandados arrancar.

A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.
A palavra silêncio é uma rosa chá.
Não há céu de palavras que a cidade não cubra
não há rua de sons que a palavra não corra
à procura da sombra de uma luz que não há.

 

José Carlos Ary dos Santos



Fonte: http://subterraneodaliteratura.blogs.sapo.pt/1483.html

Poema - Pedra Filosofal - 12Jan2008 12:56:44

ANTÓNIO GEDEÃO

Pedra filosofal

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso,
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos,
que em oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho alacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que foça através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara graga, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa dos ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, paço de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão de átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.
Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que o homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.

 

 

 

 

Pedra Filosofal: Manuel Freire


Fonte: http://subterraneodaliteratura.blogs.sapo.pt/1213.html

Luiz Pacheco - Homenagem - 08Jan2008 23:04:33

Luiz Pacheco (1925-2008) nasceu em Lisboa. Frequentou o curso de Filologia Românica na Faculdade de Letras de Lisboa que não concluiu, sendo admitido em 1946 como agente fiscal da Inspecção de Espectáculos e vindo a tornar-se terceiro oficial dessa instituição. Começa a publicar a partir de 1945 diversos artigos em vários jornais e revistas, de que se destacam O Globo, Bloco, Afinidades, O Volante, Diário Ilustrado, Diário Popular e Seara Nova. Em 1950, funda a editora Contraponto, onde publica escritores como Raul Leal, Mário Cesariny, Natália Correia, António Maria Lisboa, Herberto Hélder, Vergílio Ferreira, etc. Dedicou-se à crítica literária e cultural, ganhando fama como crítico irreverente. Denunciou a desonestidade intelectual e a censura imposta pelo regime do Estado Novo.

 

Obras: Carta-Sincera a José Gomes Ferreira (1958); O Teodolito (1962); Comunidade (1964); Crítica de Circunstância (1966); Textos Locais (1967); O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor (1970); Exercícios de Estilo (1971); Literatura Comestível (1972); Pacheco versus Cesariny (1974); Textos de Circunstância e Textos Malditos (1977); Textos de Guerrilha 1 (1979); Textos de Guerrilha 2 (1981); Textos do Barro (1984); O Caso das Criancinhas Desaparecidas (1986); Textos Sadinos (1991); Memorando, Mirabolando (1995). Prefaciou a Filosofia de Alcova de Sade (1969).

em projecto vertical

Intervenção de José Casanova, Comissão Política do PCP,  no funeral de Luiz Pacheco

Um dia, há mais de vinte anos, o Luiz Pacheco dirigiu-se à Sede da Organização Regional de Lisboa do PCP - o CT Vitória, ali na Avenida da Liberdade e disse-me: «Quero inscrever-me no Partido».
Confesso que esta intenção militante do Luiz não me surpreendeu por aí além – mas é necessário confessar, também, que, por razões óbvias, ela me deu uma enorme alegria.
Começou a preencher a ficha de inscrição, cuidadosamente, lentamente, a meio parou e disse: «Mas ponho uma condição».
E pôs a condição: «Quando eu morrer, quero ter um funeral como o do Ary: com a bandeira do Partido e com discurso».
Era uma condição razoável, mais do que razoável e, desde logo, assentámos que assim seria.
E assim está a ser: como ele quis que fosse.
A bandeira vermelha, com a foice e o martelo e a estrela de cinco pontas, lá esteve – e esteve bem - ontem e hoje, na Basílica da Estrela, cobrindo a urna e aqui está, completando a sua missão.

Falta, agora, a segunda parte da condição posta: o discurso – este de muito mais difícil e complexa execução.
Quando disse que queria discurso, o Luiz Pacheco, infelizmente, não especificou que tipo de discurso queria. Presumo, no entanto, que ele não estaria a pensar numa desenvolvida e extensa análise à situação política do momento, com as necessárias (e necessariamente contundentes) críticas à política do Governo – fosse ele este que aí temos ou um qualquer gémeo deste nos seus ataques constantes aos direitos dos trabalhadores, à justiça social, aos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos.
Por isso, não é esse o discurso que irei fazer.

O meu camarada Luiz Pacheco também não quereria, penso, que o exigido discurso se desenvolvesse em torno da história do PCP e do seu papel na sociedade portuguesa, do seu lugar na primeira fila da luta, sempre - desde os tempos da resistência ao fascismo até aos tempos actuais de resistência a uma política com demasiados cheiros ao antigamente.
Nem quereria que eu aqui viesse dizer que ele, Luiz Pacheco, espírito livre e independente, personalidade lúcida e irreverente, Escritor e personalidade singular, soube reconhecer no PCP o partido dos trabalhadores, com tudo o que isso significa, e fez dele o seu partido. Todos os que o conhecem sabem que era assim e muitos amigos dele que aqui estão hoje, ou que nas últimas vinte e quatro horas passaram pela Basílica da Estrela, sabem do orgulho com que o Luiz lhes mostrava o seu cartão de militante - «com as cotas em dia», como fazia questão de sublinhar.
E os que não sabem, ficarão a saber agora, por exemplo, da importância que o Luiz Pacheco dava à sua ligação ao Partido, de tal forma que, sempre que mudava de residência, a sua primeira correspondência era para informar os camaradas da sua nova morada; ou, outro exemplo, da importância que dava à leitura regular do Avante! que, a partir de determinada altura, passou a ser quase exclusivamente o seu jornal; ou, outro exemplo ainda, da alegria e da satisfação com que recebia a visita de camaradas e participava nas conversas à volta do petisco.
Por isso, não é esse o discurso que irei fazer.

Também não me parece que fosse desejo do Luiz Pacheco – ainda por cima tratando-se de um desejo exigido – que eu viesse aqui dizer que a sua morte é uma enorme perda para a Cultura Portuguesa; que ele é um dos escritores de maior importância do século passado, um estilista notável que marcou impressivamente a Literatura Portuguesa – e justificar tudo isto, lembrando «Comunidade», «O libertino passeia por Braga, a idolátrica, o seu esplendor», «Exercícios de Estilo», «Crítica de Circunstância»... enfim, a sua Obra e a sua escrita depurada e segura, ágil e viva, trabalhada, muito trabalhada, exemplar.
Por isso, não é esse, também, o discurso que irei fazer.

E a verdade é que, aqui chegado, acho que é altura de terminar este discurso que não chegou a sê-lo.

Para além do que aqui disse, para além de tudo o que aqui não disse – porque ele não quereria que o dissesse - fica a imensa saudade que o Luiz Pacheco deixa em todos nós. Saudade do Amigo. Saudade do Camarada. Saudade do Escritor. Saudade do Luiz Pacheco exactamente como ele era e pelo que ele era.
Uma saudade que, de algum modo, podemos ir matando… lendo-o. E, assim, confirmando-o como Amigo, como Camarada, como Escritor com lugar marcado na história da literatura portuguesa.
Até amanhã, Luiz Pacheco.



Fonte: http://subterraneodaliteratura.blogs.sapo.pt/806.html

D. Quixote - 30Dez2007 19:32:14

Faço referência à  obra prima de Cervantes , D. Quixote, mais como homenagem porque julgo que quanto à sua divulgação e apreciação nada tenho a acrescentar.

 

No entanto, deixarei uma nota sobre este fabuloso livro, obra prima da literatura mundial.

 

A leitura de D. Quixote é obrigatória porque para além de ter componentes importantes de um romance: bem escrito, bem estruturado, humor, drama tem uma mensagem que considero de grande valor e imprescindível para os dias de hoje.

 

 

Cervantes, com a criação do duo de sucesso -  D. Quixote e Sancho Pança - duas personagens de formação de carácter antagónica diz-nos como deve ser construído o homem e a sociedade.

 

O homem e a sociedade transportam em si a componente do ideal, social - o ser (D. Quixote) e a componente do material, económica - o ter (Sancho Pança), não há homem nem sociedade que seja despida de social e material, do ser e do ter, por isso Cervantes põe D. Quixote e Sancho Pança a caminhar lado a lado, mas atenção D. Quixote vai sempre um passo à frente. 

 

 



Fonte: http://subterraneodaliteratura.blogs.sapo.pt/647.html

Jorge Amado - Subterrâneo da Liberdade - 21Dez2007 23:06:17

Início o meu blog sobre literatura com uma obra de Jorge Amado - Os Subterrâneos da Liberdade - não só por se tratar de uma obra de grande qualidade e imprescindível para um bom leitor mas porque serviu de inspiração para o nome do meu blog principal.

 

A obra é composta por três volumes distintos mas que se completam - Os Ásperos Tempos, Agonia da Noite e A Luz no Túnel .

Esta trilogia é o relato da vida brasileira e do seu povo, e a luta resistente do Partido Comunista Brasileiro ao Estado Novo instaurado pelo ditador Getúlio Vargas.

Assim, a luta do povo brasileiro e a resistência do PCB durante o Estado Novo constitui o tema fundamental da trilogia.

Os Ásperos Tempos

 

 

Os Ásperos Tempos é o primeiro romance da trilogia. O instaurar da ditadura, o recorte das forças políticas, os ideais, o inicio da resistência, tudo isso nos é apresentado, transporto para o romance, no estilo apaixonado de quem não se limitou a testemunhar os factos, mas neles participou, pagando com o exílio a coragem do ideal abraçado e posições assumidas.

excertos:

ABAIXO O IMPERIALISMO IANQUE VIVA O P.C.B .
E de novo foi lançado em turvos pensamentos sobre o mês de Outubro e suas desagradáveis lembranças. O automóvel marchava outra vez mas Artur continuava a enxergar a inscrição subversiva. E ela relembrava-lhe a entrevista com o dirigente comunista, a precisão das palavras do moço, suas propostas de união e a perspectiva dramática que ele traçara no caso que os políticos democráticos continuassem “de olhos fechados”. Uma estranha mistura de sentimentos dominava Artur ao recordar a entrevista: um certo despeito – aquele homem ainda moço, mal vestido, saído sem dúvida dos meios operários, querendo lhe ensinar política – e uma certa admiração pela severa figura do revolucionário.

 

....

      

  Por vezes, os camaradas contam feitos heróicos de companheiros mortos em combates, de homens enfrentando a policia com uma coragem de gigantes, mas Mariana pode pensar e julgar desse heroísmo quotidiano da vida ilegal, desses comunistas, encafuados em esconderijos, que jogam sua liberdade a cada momento que não têm direito a nenhuma diversão, muitos deles não tem sequer possibilidade de vida privada, que são o corpo e o sangue do Partido, a cabeça da classe operária. Ela conhece o seu dia-a-dia de anónimos heroísmos, ela se pergunta a si mesma o que deve fazer para ser digna companheira de tais homens, para ser digna mulher de João que a espera, que tem uma pergunta a lhe fazer. Ah!, seu Partido, aquele Partido pelo qual seu pai dera a vida, pelo qual tantos homens abandonam a segurança e o conforto, a claridade do dia e o direito de andar nas ruas livremente, como ela ama a esse Partido perseguido e odiado que ela se acostumou a ver caluniado, a esse Partido que ela se acostumou a ver acordado na hora que chega a madrugada.....

Agonia da Noite

As personagens inesquecíveis (João, Mariana, Gonçalão , Ruivo...) reaparecem aqui envolvidas na mesma acção que se vai desenvolvendo em novos episódios de luta.

Palpitantes da vida que Jorge Amado lhes imprimiu, surgem-nos agora Doroteu e a sua negra Inácia, dramáticos e líricos de um comovente romance de amor, e heróis de uma luta colectiva que é a luta de todos os oprimidos da Terra.

Páginas empolgantes, em que se sente o confrontos da construção de sociedades distintas, dispostos na dramática luta que os contrapõe, mas onde se adivinha, uma esperança de um amanhã fraterno que nada conseguirá tirar aos que lutam por mais liberdade e justiça.

excertos:

Os passos tomaram outro rumo, ele desenhou, ao lado da inscrição, a foice e o martelo.

Guardou, na mala do automóvel, as brochas e a lata de piche. Seu paletó e suas calças estavam sujas, as mãos também. Mas ele sorria, agora estava contente consigo mesmo.

Olhou mais uma vez a inscrição por ele terminada:

“VIVA A GREVE! MORRA A POLIC ...”

“Amanhã, pensou entrando no automóvel, acompanharei o enterro do estivador assassinado”. Pisou no acelerador, tinha vontade de cantar.

...

Não matem seus irmãos!
Mas os cavalos já se encontravam em meio à massa, dispersando-a, e suas palavras perderam-se entre os gritos e os ais. Homens e mulheres invadiam as casas comerciais, os edifícios de apartamentos.
Fugiam por todos os lados. Os soldados a cavalo perseguiam os fugitivos, os investigadores agora derrubavam gente com as coronhas dos revólveres. Marcos de Souza e Doroteu tinham finalmente se aproximado da negra Inácia, ela respirava ainda. Entre os dois voltearam-lhe
o corpo, puseram-na de costas, viram seu rosto contraído de dor. O negro Doroteu chamou:
— Nácia ! Nácia !.
Ela entreabriu os olhos, mas logo novamente os cerrou.
Marcos de Souza disse:
— Vamos tirá-la daqui...
Só então o negro Doroteu atentou naquele homem bem vestido e a princípio o imaginou um tira, pôs-se em frente do corpo de Inácia:

— Sai! É minha mulher...
— Não sou da polícia. Sou um amigo... — tivera vontade de dizer “um companheiro”, mas não se atreveu.
Sua voz era tão sincera, que Doroteu não discutiu.

 

A Luz no Túnel

 

 

 

O título o parece sugerir que o livro nos irá desvendar o alvorecer da luz da liberdade para que se dirige o esforço e sacrifício do herói colectivo PCB em que se encarna a luta do povo.

No entanto, e à primeira vista, tudo parece ir em sentido contrário.

Mas há, efectivamente, uma luz a brilhar no meio das trevas, uma teimosa luz de esperança que se sente no grito da mulher, que se sobrepõe à derrota aparente da causa defendida pelo homem (L. C. Prestes) que vamos encontrar sentado no banco dos réus num julgamento que deveria por termo à luta e resistência do povo e do Partido Comunista.

excertos:

Uma certa agitação percorre os assistentes: murmúrios, gente procurando colocar-se melhor, e logo depois um silêncio profundo e completo. Mariana estende a cabeça: o presidente do Tribunal, a voz quase inaudível, acaba de dar a palavra a Prestes.

E a voz de Prestes se eleva, rica de amor e de verdade, cada palavra soando como uma mensagem de esperança e cer­teza, partindo daquela sala policiada de Tribunal para os mais distantes recantos do Brasil. Mariana sente-se arrastada por aquela voz, é a voz vitoriosa do Partido sobre a reação e o terror:

“Eu quero aproveitar a ocasião que me ofe­recem de falar ao povo brasileiro para render homenagem hoje a uma das maiores datas de toda a história, ao vigésimo-terceiro aniversário da grande Revolução Russa que libertou um povo da tirania...”

...

Ela sabe apenas que são os inimigos derrotados pela con­duta comunista de Prestes, aqueles que o queriam desmora­lizar ante o povo, os que haviam sonhado terminar com o prestígio do Partido, com o amor do povo a Prestes.

Por um instante, subitamente, Prestes liberta-se dos policiais, volta-se para o povo, abre a boca para falar. Mas novamente atiram-se sobre ele, Mariana não resiste mais e grita: ,

— Viva Luís Carlos Prestes!

-------

Grande romance de um grande escritor, Os Subterrâneos da Liberdade bastaria, só por si, para imortalizar no mundo da literatura o nome de Jorge Amado.

 



Fonte: http://subterraneodaliteratura.blogs.sapo.pt/369.html

Regista-te

Regista-te e participa neste projecto Basta inserir o email e começares a tua participação. Boas navegações pela Lusofonia


Email:
Painel controlo
  • Email:
  • Palavra-passe:
  • Lembrar dados
  • Ir administraçào


Site Oficial

logo_mil.jpg

Membros Klub
Jornal
Sondagens
O que pesou mais na sua adesão ao MIL?
A concordância com a nossa Declaração de Princípios e Objectivos.
O mau estado da Lusofonia
Outras razões
Mil...

nova-aguia

lusopoemas

as-artes

fausto

agostinhodasilva

che

poesia

magalhaes

gov

avkd
...e Um

poemas

koisas

afmach

raspinja

flavio

rodinha26

teoriadoscalhaus
Galeria







Procura
©2017, BlogTok.com | Plataforma xSite. Tecnologia Nacional